domingo, 24 de março de 2019

Laranja Mecânica: análise crítica

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Na dinâmica do filme Laranja Mecânica, os acontecimentos são narrados sob a ótica de um elemento que se destaca: a violência. Tanto na atuação desenfreada dos “delinquentes”, que ignoram a lei e a ordem social, quanto por parte do Estado, que detém o poder de punir.  Aqui, percebemos como se dá o controle coercitivo exercido pelo mais forte em relação ao mais fraco, ou seja, aquele que detém a força usa-a a seu favor, a fim de submeter o que não a detém, no intuito de alcançar os seus interesses. O filme levanta questões sobre ética nas atuações individual, médica e governamental, mostrando que a regulação das relações sociais é bem mais complexa do que parece.

Após cometer atrocidades, agindo com extrema violência contra a vida de terceiros, o personagem Alex é preso, sendo condenado a uma pena de 14 (quatorze) anos de reclusão. Já na prisão, é encaminhado para um ‘tratamento revolucionário’, após demonstrar interesse na redução de sua pena. 

O tratamento é feito por uma equipe médica, em uma clínica, consistindo na exposição do paciente a cenas explícitas de violência, também com conteúdo sexual, sem que haja possibilidade de fechar os olhos em nenhum momento, ao mesmo tempo em que um medicamento que provoca uma terrível sensação de náusea é administrado. 

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Percebe-se aqui a utilização de uma técnica exclusivamente comportamental, qual seja, o condicionamento respondente, no qual junto à administração de um medicamento (estímulo incondicionado) que causa náuseas (resposta), associam-se as cenas de extrema violência (estímulo condicionado). A técnica praticamente replica o clássico experimento de Pavlov.

Ainda, pode-se pensar sobre a punição como meio supostamente eficaz para modificação de comportamentos, já que as náuseas são uma punição para qualquer pensamento ligado à violência no filme.

Segundo o enredo cinematográfico, esperava-se que a submissão do personagem Alex ao tratamento acima mencionado fizesse com que ele se sentisse mal todas as vezes que engendrasse um comportamento violento, o que realmente ocorreu durante algum tempo. Conforme a narrativa,  as fortes sensações de náusea sentidas pelo ‘criminoso recuperado’, incapacitavam-no  para cometer atos de violência. 

Porém, o tratamento não obteve sucesso duradouro, pois logo a resposta condicionada de sentir náuseas foi se extinguindo, enfraquecendo a sensação de punição ao se aproximar de contextos e ações violentas. Isso porque, como se sabe, os estímulos condicionados vez ou outra precisam ser associados com o estímulos incondicionados, caso contrário, seu efeito se desfaz enquanto condicionamento respondente.

Sem adentrar extensamente nas questões éticas médicas envolvidas no tratamento aplicado, bem como naquelas relativas à atuação do Estado, que detém o poder de punir e o faz visando à “recuperação do criminoso”, é possível extrair algumas conclusões importantes do “tratamento” aplicado ao personagem Alex no filme Laranja Mecânica.

Primeiro, que a modificação de comportamentos indesejados não se dá simplesmente pela técnica isolada de reforçamento, seja com associações positivas ou negativas (comportamentos respondentes). E aqui observa-se que a aplicação desta técnica de reforçamento deve ser permeada pela ética, sempre lembrando que o sujeito não pode perder sua autonomia e ser ignorado quanto a suas capacidades reflexivas (cognição).

Segundo, que o uso de punições para a cessação de comportamentos indesejados pode ter efeito contrário. Sem dúvidas, além dos efeitos colaterais nocivos provocados pela punição (que fere inclusive questões éticas), o sujeito pode habituar-se tanto à punição, que está deixa de provocar-lhe incômodos suficientemente necessários à cessação de um comportamento, enfraquecendo o reforço negativo aplicado. Nesse caso, o reforçamento positivo teria sido uma melhor escolha, que também só poderia funcionar a longo prazo se aplicado com consideração à subjetividade do sujeito (eventos internos), com estimulação de suas capacidades reflexivas.

No filme, observa-se que as técnicas de condicionamento respondente foram aplicadas também com uso da força, num contexto de controle coercitivo por parte do Estado. Buscou-se modificar o comportamento do indivíduo, desconsiderando em absoluto o sujeito como ser autônomo e dotado de subjetividade. Tentou-se, pela violência, fazer cessar a violência, já que um experimento que desconsidera a subjetividade do sujeito transforma-o em mero objeto, que atuará sem livre vontade e autonomia. 

A partir desta elaboração, vale refletir até que ponto o controle comportamental, a nível social, traz ou não benefícios para sociedade. Ainda, em que medida se mostra necessário. 

Por fim, importa considerar, principalmente, no que tange às técnicas psicológicas de abordagem cognitiva-comportamental, o que de fato é preciso para modificar as ações do sujeito. Basta ao indivíduo o trabalho relacionado a seu processamento cognitivo para modificação comportamental? Ou por detrás de nossas cognições ainda se encontram outros processos mais complexos que fogem ao mero treinamento nas atuações? 

Não seriam os condicionamentos, ainda que aplicados de forma ética, uma mera repressão de nossos “mal-resolvidos”?

Cabe aqui uma boa reflexão...


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